domingo, 15 de abril de 2012

DEMÓSTENES ESTÁ CERTO


Brasileiros indignados de um lado. Do outro uma figura singular, passiva, com a expressão de quem sabe o que está fazendo. Este é o cenário que observamos o Senador Demóstenes Torres (até pouco tempo do DEM/GO) ao anunciar que não irá renunciar e que pretende provar sua inocência no mérito. No mérito, essa é a expressão perfeita de sua confiança, e que a meu ver, impactou fundo em todos os operadores do direito nacional, que perceberam que ele sabe exatamente o que está fazendo.

O Brasil é um país com fulcro no Estado Democrático de Direito, o que implica que ele é regido pela vontade do povo, mas que este o faz através de uma série de instrumentos, normas e ritos pragmáticos, como por exemplo o estabelecimento de direitos e deveres expressos em Lei. Para entender melhor (ou mais simples): Não é crime se não previsto em Lei. Além de ser previsto em Lei, é preciso constituir a tipicidade do crime, onde se prova mais do que a prática do ato, mas também sua intenção em praticá-lo. Nesse contexto, surge o foro privilegiado, que garante a um determinado grupo de pessoas tratamento diferenciado do restante dos brasileiros. Em geral esse tratamento privilegiado visa garantir segurança para aquele grupo, condições de trabalho para que possam “peitar” instituições e grupos econômicos que de alguma forma atentem contra a liberdade. O foro privilegiado é a garantia da manutenção da democracia, se esta entendida em toda a sua plenitude. A lógica por trás disso é simples: Se o elemento goza dos benefícios do foro privilegiado, é por que o povo o quer assim. O povo o colocou lá através do voto, ou então ele chegou lá através da indicação de pessoas que foram escolhidas pelo povo para terem o poder de tal indicação.

Assim sendo, quando o Senador Demóstenes afirma que vai provar no mérito que é inocente ele o faz com muita propriedade, pois sabe que os indícios levantados contra ele sequer poderão ser considerados num processo legal. Não é que seja correto isso, mas, se acontecer o contrário, apesar de ser o que o povo quer, abrir-se-á um perigoso precedente contra a democracia de Direito. O STF terá que julgar não os atos do Senador, mas os direitos dele como cidadão eleito pelo povo, e neste caso, muito pouco poderão os Ministros do supremo fazer, pois a eles cabem exatamente a garantia da democracia, e não o juízo de caráter.

É triste. Patético. Mas quem mandou votar no homem?
Qual poderia ser a solução então? Ao meu ver  somente o princípio do “dilúvio bíblico” pode dar jeito na situação. Acabem com tudo, refaça a Constituição, repopule o Congresso Nacional. Enquanto o poder legislativo estiver comprometido com corrupção, e enquanto estiver sendo eleito com ajuda financeira de “empresários” estará comprometido, não haverá lisura naquela casa. E não adianta crucifixar Demóstenes. Ele é somente a bola da vez.  Ele sabe disso. Por isso se garante no mérito.

sábado, 11 de junho de 2011

CRÔNICA DO AMOR - De Arnaldo Jabor

"Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no
ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama
este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura
por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa."

Arnaldo Jabor

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Em algum lugar perto do Iraque

Não era do tipo que chamava a atenção. Tinha uma aparência bastante comum. Estatura mediana, até franzino para idade. Talvez até por isso seu pai lhe tinha tanto cuidado, sempre deixando uma pequena guarnição para dar proteção.

Quando se mudaram para aquela terra achara que seria divertido. Afinal, iria morar numa terra onde seu povo era soberano. Desde a ocupação daquela região no oriente médio pelo seu povo, nutria o desejo de conhecer aquela região, onde mulheres escondiam-se atrás de véus com muitos outros costumes tão diferentes. Mas logo que se mudaram, viu que não teria nada divertido ali. Ser filho de um oficial de exército trazia muitos riscos. Logo no primeiro dia viu alguns soldados de seu pai serem mortos em ataques terroristas. A partir daí, seu pai nunca mais o deixou sair de casa sem ser escoltado. O nutria por aquele povo não era medo. Era desprezo. E com o passar dos dias, o desprezo se transformava em raiva.

Certo dia, junto com outros filhos de oficiais, resolveram se aventurar pela cidade, no que eles chamara de “incursão à terra dos turbantes”. O plano era simples, sair sem serem notados e andar pela cidade para exibir toda sua coragem. Afinal, sabiam que, apesar de bárbaros, aquele povo não costumava agredir crianças. E além do mais, a cidade era sempre patrulhada, haviam milhares de soldados ali, e num simples aceno poderia conseguir a ajuda deles.

Na hora marcada, se reuniram no local combinado, e saíram furtivamente em busca de diversão. No total eram cinco garotos com idade entre 12 a 15 anos. O alvo: a feira da cidade, onde todo o tipo de bugigangas eram negociadas. Se colocaram a caminhar, em fila para não chamar muito a atenção. Passavam por ruas estreitas e pequenos mercados em rumo ao objetivo. Tudo corria bem, até que um tumulto aconteceu atrás deles. Ele era o ultimo da fila, e o mais novo dos cinco. Ele olhou para trás, no que juraria mais tarde ser apenas um segundo, e quando voltou a olhar para frente, havia se perdido de seus colegas. Olhou em volta acreditando que era apenas uma peça de seus colegas, e que a qualquer momento eles sairiam de trás de alguma barraca. Mas isso não aconteceu, e aos poucos se tocou que a realidade era sombria; estava só. Pensou em voltar para casa, mas olhando em volta todas as ruas pareciam iguais agora. Seguiu durante alguns minutos o caminho que acreditava ser o correto e que lhe levaria para a segurança do lar. Parou meio que atordoado. Pensou: “é só pedir a ajuda de algum soldado, eles com certeza me ajudarão”, mas só daí percebeu que durante todo o trajeto desde que saíra de casa com seus amigos, não havia cruzado com uma guarnição sequer. Seu coração começou a ficar apertado dentro do peito,  e ele num ímpeto, saiu em disparada correndo entre as ruas da cidade. Foi ai, que, numa das esquinas, trombou com 6 meninos nativos. Antes que pudesse reagir se viu cercado por aqueles meninos, que descarregavam palavras que não entendia, mas que percebia não serem elogios. Tentou manter a calma e mostrar-se forte, com a certeza que jamais encostariam um dedo sequer nele. Novamente estava errado.

O primeiro soco o lançou no chão. A partir daí, a única coisa que ele conseguia ver eram pedras sendo pegas no chão e atiradas contra ele. A primeira que o acertou fez com que sentisse pela primeira vez o gosto de seu próprio sangue. Tentou se proteger com as mãos, mas não conseguiu. Passaram-se apenas alguns segundos desde o primeiro soco, mas foi o suficiente para que ele se lembrasse de todas as histórias que tinha ouvido sobre aquele povo, como eram bárbaros, e matavam a pedradas os que julgavam pecadores. Teve a certeza que era esse seu destino.

Foi então que um outro menino, tão pequeno e aparentemente insignificante quanto ele, se colocou entre ele e seus agressores. O menino pouco falou. Mas suas palavras pareciam ser fortes, pois fez com que a turba parasse imediatamente com a agressão. Pode notar que as palavras daquele garoto não eram ordens, ou ameaças. Eram num tom tranqüilo, como quem fala uma poesia. Aos poucos seus agressores foram indo embora. O menino então se virou para ele, e lhe estendeu a mão:

- Você está bem? precisa de ajuda? Desculpe meu povo, eles não sabem o que é tolerância - Ele se levantou com a ajuda daquele pequeno protetor, que insistia em espanar o pó de sua roupa, enquanto o inspecionava para saber a extensão de seus ferimentos – você não sofreu nada de mais grave, logo estará bem. Venha comigo, te levarei até seu pai.

O percurso foi rápido. Enquanto caminhavam, pensava como poderia um bárbaro dominar tão bem seu idioma. E o que aquele garoto teria falado para o bando que o agredia, que fez com que parassem de agredi-lo.

No portão de sua casa, novamente trocaram algumas palavras – “Bem, ai está. São e salvo. Tome mais cuidado da próxima vez, escute seu pai, e não saia sem escolta” – O estranho se virou e já ia caminhando quando ele falou:

- Meu nome é Pilatos. Obrigado pelo o que você fez hoje. Como posso lhe pagar?

- Não se preocupe Pilatos, você não me deve nada.

- Mas como você se chama?

-Eu me chamo Jesus, sou filho do carpinteiro aqui da vila – e novamente virando-se para partir, olhou novamente para trás, e com um sorriso sincero aconselhou: - Pilatos, cuide-se, e não se esqueça de lavar suas mãos.

Tudo isso aconteceu num lugar perto do Iraque..... a cerca de 2.000 anos atrás.

sábado, 4 de junho de 2011

A Última Fronteira – O Limite entre a incoerência e a razão, o retorno.

Bem, depois de 6 anos resolvi retornar à vida bloguistica, e por isso em respeito aos meus quase dois leitores (brincadeira, eu tinha mais que o dobro disso na época) acho que tenho explicar o motivo de minha retirada do “A Última Fronteira” do ar. O motivo foi simples. Falta de tempo e necessidade de ganhar dinheiro. Agora passados 6 anos vejo que tempo a gente compra, e dinheiro, bem, se não ganhei nesses últimos 6 anos, não será o blog que irá atrapalhar.

Para aqueles que apreciavam meus textos irônicos, ásperos e terrivelmente sinceros posso garantir que o tempo me fez mais irônico, mais áspero, e menos sincero um pouco. Para os que não tiveram a oportunidade de ler algo meu no passado, agora terão. Se isso é sorte ou azar depende do seu gosto. Do seu bom-gosto.